Uma das coisas que mais admirava na minha amiga-irmã Alê era sua força. Ela era guerreira, sempre. Sorria, mesmo com dor. E nunca perdeu a esperança.
Eu contava muitas histórias pra ela (fui voluntária contadora de histórias por 11 anos), lia de livros infantis – e como nos divertíamos com eles! – a contos, como este abaixo, um de seus preferidos:
A estrelinha que ficou (extraído de Contos e Lendas Orientais, de Malba Tahan)
Um poeta polonês , Felix Zamenhof, imaginou que as estrelinhas do céu resolveram, certo dia, descer do azul, abandonar a altura do sem-fim e vieram todas, muito alegres, vier, na Terra, entre os homens. Mas as estrelinhas aqui permaneceram pouco tempo; aborreceram-se, por vários motivos, e voltaram a constelar o firmamento. Houve, porém, uma estrelinha que resolver ficar. E ficou mesmo. Qual seria esta estrelinha que vive, entre os homens e no coração dos homens? Qual seria?
O caso que vou narrar, meu amigo, aconteceu há muitos e muitos anos.
As estrelinhas do céu resolveram, certa vez, deixar as alturas em que vivem. Deixariam o céu e viriam todas para a Terra.
-Vamos para a Terra, vamos para a Terra! – gritavam, com alegria, as estrelinhas do céu. – na Terra há mares, há rios e há florestas! Na Terra há frutos, há flores e há perfumes. Vamos todas para a Terra!
As estrelinhas falaram ao Anjo da Serena Compaixão.
Esse Anjo da Serena Compaixão é que vigia e comanda, por ordem de Deus, todos os astros luminosos do céu.
O Anjo da Serena Compaixão sabia que as estrelas que parecem, lá longe no céu, tão pequeninas, são grandes, imensas. E foi, por isso, falar a Deus, o senhor da Eterna Bondade.
– Deus Poderoso – disse, muito humilde, o anjo. As estrelinhas do céu querem ir para a Terra. Mas elas são pesadas, enormes e cheias de calor. A Terra não poderia conter as constelações que povoam o céu.
Deus, o Senhor do Mundo, sorriu bondoso e respondeu:
-Ora, tudo é muito simples. Eu permitirei que as estrelinhas desçam do céu e passem a viver na Terra. Sim, irão para a Terra. Mas elas descerão do céu e permanecerão, assim, pequeninas, como aparecem lá das alturas, pequeninas e bem pequeninas. E sempre pequeninas e brilhantes permanecerão na Terra.
Houve, nesse dia, ao cair da noite, uma chuva maravilhosa de estrelas.
Uma chuva de estrelas!
No céu ficaram o Sol, a Lua e um cometa rabugento, de cauda comprida, que não quis descer.
Mas as estrelinhas desceram.
Desceram e encheram a Terra. Espalharam-se por toda parte. Pelos campos, pelas praias, pelas estradas e pelos jardins.
Havia estrelinhas brancas, azuis, verdes, roxas e amarelas. Havia até (vejam só!) uma estrela furta-cor!
Que beleza!
Algumas ficaram bem quietinhas, a cintilar, no alto das torres; vieram outras pousar nas fontes, nos repuxos, ou saltitar entre as flores e iluminar os bosques.
As mais pequeninas, brincalhonas, apostavam corrida com os vaga-lumes; ou iam devagarinho assustar os sapos que cochilavam tranquilos entre as pedras junto das lagoas.
Que alegria para as crianças! Que alegria!
Mas no fim de poucos dias as estrelinhas começaram a fugir da Terra, aos grupos, aos bandos. Deixavam a Terra e voltavam para o céu. Voltavam a brilhar lá em cima, para além das nuvens, para além da Lua.
O Anjo da Serena Compaixão, ao observar que as estrelinhas voltavam, interrogou-as:
– Por que vocês voltaram?
A primeira estrela respondeu:
– Senhor! Vi tanta maldade na Terra que fiquei triste. Muito triste. E resolvi voltar para o céu.
Outra estrela, sendo interrogada, disse ao Anjo:
Na Terra, senhor, vi egoísmo, vi ingratidões e perfídias! Vi filhos falando grosseiramente com seus pais! Vi fracos perseguidos e espancados pelos fortes. Meu coração ficou abalado. E por isso, só por isso, resolvi voltar para o céu.
– E você? – perguntou, ainda o Anjo, a uma terceira estrela. – E você, por que voltou?
– Senhor, na Terra, durante os três dias que lá passei, vi homens ricos sem piedade; vi enfermos abandonados; velhos, sem lar, que vivem famintos, na miséria. Vi crianças andrajosas que mendigam pão pelas ruas. Tudo isso encheu de mágoa o meu coração. Resolvi voltar. Voltar para o céu.
Uma estrelinha amarela, do Cruzeiro, seguida de outras três (que eram suas irmãs) voltava também. O Anjo da Serena Compaixão perguntou-lhe:
– Que viu você na Terra, estrelinha amarela? Por que voltou?
Respondeu, cheia de funda mágoa, a estrelinha amarela do Cruzeiro:
– Senhor, vi na Terra homens sem fé que não creem em Deus! Sofri, com isso, um profundo abalo. Que tristeza! Homens ateus, sem fé, que não acreditam em Deus! Deixei a Terra e resolvi voltar para o céu.
E assim todas as estrelinhas, por terem visto maldades na Terra, voltaram para o céu. E cada uma, ao chegar, ia muito quietinha, retomar o seu antigo lugar no meio das constelações.
O Anjo da Serena Compaixão achou que devia conta-las. E contou-as, uma a uma!
– Uma, duas, três, quatro, cinco…
E nessa conta, uma a uma, foi até vinte mil e seis:
– Vinte mil e seis!
Estranhou o Anjo aquela conta. Estranhou e disse:
– O que é isso? Esta conta não está certa. Desceram vinte mil e sete estrelinhas, e só voltaram vinte mil e seis! Está faltando uma! Falta uma estrelinha!
– Sim, sim, confirmou uma estrelinha azul que estava perto. – falta uma estrelinha, Houve uma companheira que não quis voltar. Resolveu ficar, para sempre, entre os homens.
Indagou o Anjo:
– Que estrela foi essa? Qual foi a estrela que não voltou?
A estrela azul, falando muito baixinho, respondeu:
– Escuta, Anjo da Serena Compaixão. Escuta! Foi a estrela verde da esperança, nossa boa amiga e companheira. Foi essa, a estrela verde da esperança, a única que não voltou… Ficou…
A estrela verde da esperança!
É por isso, meu amigo, que os homens, todos os homens, nos momentos mais tristes da vida, nos momentos de perigo, de dor ou de aflição, nunca perdem a esperança…
É que a estrelinha da esperança, nossa boa amiga, deixou o céu e veio (diz a lenda) viver na Terra e vive, para sempre, no coração dos homens.
Foi a única que ficou…
Mariana Mansur